Qualidade da água e seu impacto na produção animal

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A massa corporal bovina é composta por aproximadamente 70% de água, o que torna essa substância crítica e essencial para a saúde e a produção animal. A água está totalmente ligada às funções vitais, tais como reações metabólicas, crescimento, reprodução, lactação, digestão, regulação da homeostase mineral, hidrólise de proteínas, gordura e carboidratos (NRBC, 2016). Além disso, a água permite o transporte de diversas moléculas, nutrientes, hormônios e também facilita a eliminação de resíduos metabólicos e a regulação térmica dos animais (Wagner & Engle, 2021).

O consumo de água por bovinos de corte é influenciado de forma negativa ou positiva por diversos fatores, sendo eles: tamanho e crescimento corporal, estágio de produção, ingestão de alimentos, temperatura, umidade do ar e qualidade da água. Há uma grande correlação entre temperatura, peso corporal e ingestão de água por bovinos, sendo que animais submetidos a temperaturas elevadas, consomem maiores quantidade de água para manter a homeostase térmica, como mostra a tabela 1.

Tabela 1. Consumo de água de bovinos de corte em crescimento e terminação com diferentes pesos corporais e temperaturas ambientais (adaptado de NRBC, 2016).

Peso Corporal – kg Temperatura – ºC
4,4 10 14,4 21,1 26,6 32,2
Crescimento
182 15,1 16,3 18,9 22,0 25,4 36,0
273 20,1 22,0 25,0 29,5 33,7 48,1
364 23,0 25,7 29,9 34,8 40,1 56,8
Terminação
273 22,7 24,6 28,0 32,9 37,9 54,1
364 27,6 29,9 34,4 40,5 46,6 65,9
454 32,9 35,6 40,9 47,7 54,9 78,0

Além disso, parâmetros físicos (cor, turbidez, temperatura, sabor/odor e quantidade de sólidos), químicos (pH, alcalinidade, dureza, cloretos, nitrito e nitrato) e microbiológicos (coliformes e E. Coli) também influenciam no consumo de água, no consumo de matéria seca e no desempenho de bovinos de corte (Willms et. al, 2000).

A turbidez está relacionada com a presença de materiais sólidos suspensos presentes na água, como argila, sílica, matérias orgânicas e inorgânicas. A presença de matéria orgânica tem forte ligação com a frequência e a qualidade da limpeza dos bebedouros (figura 1). A limpeza dos bebedouros três vezes por semana não prejudica o consumo de água e o consumo de matéria seca dos animais (Panzera, 2021). Uma prática adotada nos confinamentos para facilitar a limpeza dos bebedouros é a pintura com tinta epóxi, conforme mostra a figura 1.

Figura 1. A – Bebedouro com presença de matéria orgânica e fundo invisível.
B – Bebedouro com fundo visível e ausência de matéria orgânica.

De acordo com o NRBC (2016), a análise de dureza da água constitui-se nas concentrações de bicarbonato, carbonatos, sulfatos e cloretos de cálcio e magnésio, sendo que valores acima de 60 mg/L podem afetar o consumo e o desempenho dos animais. Outro parâmetro importante é a concentração de sólidos totais dissolvidos ou salinidade, sendo mensurada a presença de cloreto de sódio, bicarbonato, sulfato, cálcio, magnésio e silício presentes na água. Concentrações maiores do que 1000 mg/L já impactam de forma negativa a produção e a saúde dos bovinos, principalmente quando submetidos a altas temperaturas (NRBC, 2016).

O nitrito (NO2), quando presente na água, pode ser usado como fonte de nitrogênio para a sínteses de proteína microbiana ruminal. Porém a sua forma reduzida, o nitrato (NO3), é tóxico para os bovinos. Quando absorvido pelo corpo, o nitrato reduz a capacidade de transporte de oxigênio, sendo que, em casos severos, o animal apresenta dificuldade de respiração, asfixia, rápida pulsação e convulsões (NRBC, 2016). Os valores de até 44 mg/L e 10 mg/L de nitrato e nitrato de nitrogênio, respectivamente, são seguros para o consumo de bovinos.

As análises microbiológicas são feitas para determinar a qualidade sanitária da água. Segundo NRBC (2016), o efeito de coliformes na água sobre a saúde de microrganismos ruminais é desconhecido até o momento. Entretanto, quando a água está contaminada pela presença de fezes e urina, podendo ser um meio de transmissão de E. coli e coliformes, isso pode contribuir para surtos de doenças e afetar o ganho de peso dos bovinos.

Alguns trabalhos também mostram diferença no desempenho de animais a pasto consumindo diferentes fontes de água. De acordo com Porath et al. (2002), animais que consumem água em açude tem um GMD (ganho médio diário) 29% menor que bovinos consumindo água de bebedouros.

Qualquer impacto na redução de consumo de água, seja ele de fatores ambientais ou fatores qualitativos (químicos, físicos ou microbiológicos), reduz o consumo de matéria seca e, como consequência, há uma redução no desempenho e na lucratividade dos animais.

Referências

NRBC, 2016. Nutrient Requiriments of Beef Cattle, Eighth Revised Edition. The National Academies Press, Washington, DC.

Panzera, A. A. Frequência de limpeza de bebedouros sobre o consumo de água e de materia seca de animais Nelore em confinamento comercial. Dissertação (mestrado em Zootecnia) – Universidade Federal de Viçosa. Viçosa, p. 26, 2021.

Porath, M. L., Momont, P. A., DelCurto, T. et al. Offstream water and trace mineral salt as management strategies for improved cattle distribution. Journal of animal Science, v. 80, p. 346-356, 2002.

Wagner, J. J. and Engle, T. E. Invited Review: Water consumption, and drinking behavior of beef cattle, and effects of water quality. Applied Animal Science, v. 37, p. 418-435, 2021.

Willms, W. D., Kenzie, O. R., Mcallister, T. A., et al. Effects of water quality on cattle performance. Journal Range Manage, v. 55, p. 452-460, 2002.

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Consultor Técnico Regional de Bovinos de Corte

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