Palestra originalmente apresentada durante o 13° Simpósio Brasil Sul de Suinocultura

Nos últimos anos tem se falado muito no que deve ser feito para que a nutrição dos animais seja mais precisa e, por consequência, mais eficiente e rentável. Como trata-se de um tema complexo, várias definições de nutrição de precisão surgiram e, entre elas, tem a que diz ser aquela “que fornece aos animais a alimentação que atenda, precisamente, suas necessidades nutricionais, buscando uma eficiência produtiva ideal, para produzir produtos de melhor qualidade, economicamente viáveis e que melhor preservem o meio ambiente. Na verdade, isto é o que todo técnico deve ter em mente, quando trata de nutrir os animais das diferentes espécies, nas suas diferentes fases de produção. Entretanto, um aspecto que passou a ser indiscutível é que os resultados produtivo e econômico não podem comprometer a sustentabilidade do meio ambiente e o bem estar dos animais que estão sendo criados.

Tomando a definição “ao pé da letra”, imediatamente se entende que o grau de precisão sugerido é impossível de ser alcançado, em se tratando de produção de animais domésticos e que trazem diferenças significativas, especialmente quando são produzidos em grupos. Entretanto, o propósito da definição é que se procure a perfeição naquilo que se formula como alimento para os animais. Associado a nutrição de precisão, é fundamental que se considere que, depois de bem definir os níveis nutricionais que devem ser fornecidos aos animais, que se tenha uma formulação de precisão e uma alimentação de precisão, fazendo com que todo o processo se torne ainda mais abstrato.

O propósito deste texto é descrever as vantagens que a produção animal terá, quanto mais os técnicos pensarem no atingimento deste objetivo e quais serão os desafios contínuos para que esta condição “ideal” seja alcançada.

Vantagens no atendimento deste conceito

Primeiramente, é importante entender que os animais domésticos, como qualquer ser animal ou vegetal, têm suas necessidades nutricionais atendidas com base na “lei dos mínimos”. Sempre a energia e/ou algum dos nutrientes pode definir a capacidade máxima de desempenho dos animais. O primeiro componente nutricional limitante é que define o nível de desenvolvimento, em relação a um valor esperado. No passar dos anos, ainda no século passado, a utopia de ter uma condição que todos os nutrientes e a energia seriam atendidos em 100%, simultaneamente, foi se tornando realidade, especialmente com a disponibilidade de aminoácidos sintéticos e das diferentes enzimas exógenas, com preços compatíveis.

Como foi dito anteriormente, além dos benefícios técnicos e econômicos, este conceito vem fortemente atrelado aos princípios básicos de sustentabilidade do meio ambiente. Um conjunto de nutrição, formulação e alimentação precisos faz com que os animais sejam mais eficientes, consumindo menos alimento por unidade de ganho de peso (conversão alimentar) e, consequentemente, consumindo menos água e produzindo menos dejetos. A redução na produção de dejetos promove, por consequência, uma redução de excreção de nitrogênio e de fósforo, dois elementos químicos altamente poluentes ao ambiente. Além disto, esta eficiência faz com que a produção de equivalente CO2 seja menor, por unidade de produção. Em um cálculo, comparando duas dietas à base de milho e de farelo de soja, com diferença de 1% de proteína bruta, onde os animais apresentavam o mesmo desempenho zootécnico, a redução da proteína permitiu a redução de equivalente CO2 em 6,9%.

Claro que esta precisão esperada, traz um benefício econômico relevante pois quando se conhece a proposta nutricional e a qualidade dos alimentos que serão empregados (tema que será discutido mais adiante), toda e qualquer margem de segurança empregada em outras situações, poderá ser descartada.

Desafios para o atendimento da nutrição de precisão

Em princípio, é importante voltar a ressaltar que o conceito de nutrição de precisão vai se tornando mais complexo, à medida que a população que está sendo nutrida vai aumentando. É impossível nutrir animais, criados em grupo, como se fossem indivíduos, pelo menos com as tecnologias hoje disponíveis. Em uma população, sempre teremos animais melhor transformadores de energia e nutrientes em produto do que outros, menos eficientes. As próprias metodologias que determinam as exigências nutricionais são discutíveis, quanto aos objetivos das determinações. A empírica define a exigência de energia ou de nutriente para atender todos os animais da população. Já, a fatorial define a exigência de energia ou de nutriente para atender a necessidade específica de um animal. Também fica como questão, que parâmetro foi avaliado na determinação da exigência (ganho de peso, conversão alimentar, qualidade de carcaça, etc.)? Várias pesquisas mostram que, dependendo do método estatístico empregado e o parâmetro estudado, as diferenças nas exigências são bastante significativas.

Então, com base nestas premissas, agora serão considerados alguns fatores indispensáveis, quando se pensa em nutrição, formulação e alimentação de precisão.

Qualidade das matérias primas

Este é o aspecto mais importante de todos.

Para que se tenha segurança na aquisição de ingredientes de qualidade, o primeiro passo, indispensável, é conhecer os fornecedores. É fundamental auditá-los, com uma frequência definida, e estabelecer, com critério, o que deve ser esperado de todo o produto recebido. Produtos não compatíveis com as especificações devem ser rejeitados.

A empresa deve ter um laboratório de bromatologia, para certificar o que é recebido e se confere com o prometido. O grau de sofisticação do laboratório deve ser compatível com as análises de rotina que serão implementadas. Depois da viabilização da tecnologia NIR, as análises de rotina (análises proximais) se tornaram mais acessíveis, dependendo unicamente do bom uso dela, empregando equações de predição robustas, confiáveis. Estas curvas podem ser desenvolvidas no próprio laboratório (processo relativamente complexo) ou ser obtida de diversos fornecedores, como prestação de serviço.

Na verdade, quando se busca precisão nas formulações é impossível que se valha de dados históricos, obtidos através de envios sistemáticos de amostras para análise de terceiros. Desta maneira, as fórmulas são ajustadas, olhando no “espelho retrovisor”. Por isso que, em muitos casos, os nutricionistas se obrigam a usar margens de segurança, nos valores nutricionais e de energia dos ingredientes empregados. Este procedimento só traz como consequência imediata o aumento dos custos das dietas, sem a garantia de respostas zootécnica e/ou econômica positivas dos animais. Com o que foi exposto, fica claro que a nutrição de precisão nunca será alcançada, se as análises dos ingredientes não forem feitas em tempo real.

Para completar a preocupação com os ingredientes, os mesmos devem ser segregados, de tal forma que o uso seja ordenado pela sequência de chegada e de análise física e química, permitindo ajustes contínuos nas fórmulas, quando necessários.

Tabela de composição nutricional de alimentos

Uma vez que os alimentos são analisados, os nutricionistas dependem de tabelas de composição nutricional dos alimentos, para, através de equações, ajustar os valores das análises obtidas com os valores esperados. Através destas equações, são feitos ajustes de energia (no caso de suínos espera-se que seja para energia líquida), e de digestibilidade de aminoácidos. Aqui mais uma vez deve ser citada a tecnologia NIR, onde diferentes fornecedores de equações de predição possuem qualificação para oferecer informações que não constam das tabelas de composição de ingredientes. Também, um ponto importante, neste tema, é que os usuários das tabelas devem verificar a periocidade de atualização delas. Quanto mais frequente a atualização, mais robusta será a informação.

Formulação e produção de ração em tempo real

Um grande passo em direção à nutrição e à formulação de precisão foi o desenvolvimento do uso da tecnologia NIR, acoplando o equipamento na linha de passagem de ingredientes, antes de entrarem no misturador. Com isto, os ingredientes são analisados e, de acordo com o que resulta das análises, a próxima batida a ser misturada poderá ser ajustada, pela alteração da composição nutricional dos ingredientes. Esta tecnologia traz vários benefícios, entre eles, os ingredientes são analisados em tempo real (não precisa mais de dados históricos). Não é mais necessário o uso de margens de segurança para os ingredientes que serão utilizados. Não há mais a necessidade de segregar os ingredientes. Uma boa análise de recepção de ingredientes (normalmente física) poderá ser eficiente. As composições das diferentes batidas de ração serão uniformes, normalmente mais baratas e permitirão resultados mais uniformes no campo.

Diferenças genéticas

Este é outro aspecto complexo, quando se trata de nutrição e alimentação de precisão. Observando as recomendações nutricionais propostas pelas linhas genéticas, há diferenças significativas entre elas, inclusive variando em suas fases de produção. Para os produtores que usam mais de uma genética (bastante comum) e não têm condições de formular dietas diferentes, o grande problema é para que genética deve formular? Uma recomendação geral é que se formule para a genética que tem a maior representatividade no plantel. Também pode ser sugerido que se formule para a genética em que seus animais exigem mais nutrientes do que os animais das demais. Como pode ser entendido, ambos os casos trazem adições de custo nas formulações e se afastam do conceito de nutrição e formulação de precisão. Associado a isto, sabe-se que, além das diferenças genéticas, dentro de uma mesma genética e nas diferentes fases de produção, existem animais mais eficientes do que os outros. Levando em consideração este aspecto, para que tipo de animal se formula as dietas, para os ditos “cabeça” ou para os “cola”? Claro que as recomendações, dependendo do modelo matemático usado, pode ser para os “cabeça” ou para os animais que expressam a média de desempenho do plantel. Este é mais um obstáculo para que se alcance a nutrição e alimentação de precisão.

Formulações não lineares

Os modelos matemáticos ultimamente desenvolvidos, trouxeram muitos benefícios para o alcance da nutrição e da alimentação de precisão. Até o presente momento, a principal ferramenta para formulação está baseada em modelos lineares, em que o objetivo final é formular dietas com o “menor custo”. Isto é o que propõe estes modelos. É importante entender que ter uma fórmula de menor custo não significa que será a que trará o melhor benefício econômico para o negócio. A formulação de “custo mínimo” se baseia nos ingredientes disponíveis, nas suas composições nutricionais (com ou sem margem de segurança?) e nas restrições de uso dos ingredientes e nutrientes. Informações nutricionais pouco completas dos ingredientes e maiores restrições impostas ao modelo, ainda fará que a formulação seja a “mais barata”, mas com base as premissas impostas. Além disto, o modelo, por não considerar o resultado do produto final. Também, não leva, obrigatoriamente, em consideração, se aquela formulação atenderá as exigências para ganho de peso, para conversão alimentar ou composição da caraça.

Já os modelos não lineares permitem, de acordo com suas calibrações, quem devem ser robustas, formulações baseadas no que se espera do produto final. Pode considerar as recomendações das diferentes genéticas, pode considerar como objetivo o preço do quilo do produto na plataforma, não considerar o preço do produto, mas sim a margem que o mesmo deixará para o negócio, entre outros. Aqui o que vale é o resultado econômico do processo e não o custo da ração que será consumida. Em muitas ocasiões não é a ração mais barata que promove o melhor retorno econômico.

Número de fases de produção

Este é outro ponto importante, quando tratamos de nutrição e alimentação de precisão. É sabido que quanto maior o número de fases, especialmente em animais em crescimento, menores são as perdas nutricionais. Em qualquer situação, em cada fase, normalmente, as exigências são definidas com o valor do meio da fase, pois em cada fase as exigências vão diminuindo, a cada dia (compensadas por maior consumo). Fases longas são mais prejudiciais. Aqui tem outra perda marcante. Normalmente, os suínos quando trocam de fase (de alimento) e as diferenças são muito grandes, há uma redução de consumo. Esta resposta ocorre porque os animais “entendem” que algo está diferente e levam algum tempo para recuperar o consumo. Um maior número de fases faz com que as diferenças sejam menores entre elas e isto prejudica menos na redução de consumo entre as fases. Inclusive na Europa, por muito tempo vem sendo recomendado uso de somente duas dietas, por todo o período de crescimento e de terminação dos suínos. Através de equipamentos apropriados, a cada dia a dieta 1 é colocada em menor quantidade e a dieta 2 é colocada em maior quantidade. Assim, na prática, se tem várias fases, com aumento de uma dieta em detrimento da outra, permitindo uma harmonia nestas trocas. Este é um bom exemplo de alimentação de precisão.

Produção em tempo real

Vários comentários até aqui foram feitos para justificar a importância de produção em tempo real, para se alcançar a nutrição, a formulação e a alimentação de precisão. Nos próximos anos este apelo será muito significativo e a indústria será abastecida com hardwares e softwares muito importantes. Isto permitirá maior precisão na produção, tornando-se disponíveis medidas de peso dos animais e do alimento consumido, em tempo real, assim como consumo de água e as condições de ambiente onde os animais se encontram, com indicadores de bem estar animal. Isto possibilitará também a diminuição de mão de obra para trabalhos repetitivos, deixando para eles atividades mais estratégicas e para a interpretação dos resultados que estarão sendo gerados. A mão de obra poderá diminuir. Mas, o grau de formação dos produtores e técnicos deverá aumentar.

Treinamento dos técnicos e dos produtores.

Anteriormente, foi dito que em um futuro próximo mudará o perfil dos profissionais e produtores. Estas mudanças não ocorrerão por acaso. Muita inversão será feita nos sistemas de produção, com todas estas tecnologias e os usuários terão que ser treinados para bem usá-las. Mais atenção terá que ser dada a interpretação dos resultados. Teremos que ser mais assertivos para entender por que há tanta variação entre os produtores de uma mesma empresa? É a variabilidade de resultados, entre os produtores, que normalmente comprometem os resultados finais do negócio. A era dos valores médios de produção está acabando. Com médias não se melhora os processos. Eles só são melhorados mediante o estudo profundo das causas que promovem as variabilidades e elas só serão acertadas mediante estudos matemáticos, de avaliação e interpretação de resultados.

Outros aspectos que interferem na nutrição de precisão

A lista de aspectos importantes é longa. Mas, para efeito de não deixá-las desconsideradas, ainda pode ser citado que partícula finas dos ingredientes, dietas peletizadas, qualidade, quantidade e temperatura de água, entre tantos outros, são aspectos que influenciam positivamente na busca do conceito de nutrição, formulação e alimentação de precisão.

Conclusões

Nutrição e alimentação com precisão leva a produção mais eficiente.

Todo o trabalho inicia com o bom uso dos ingredientes.

Os propósitos da produção devem estar bem definidos.

As atividades devem ser controladas em tempo real.

Os técnicos e os produtores devem ser treinados para o correto emprego de novas tecnologia.

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