O número de animais terminados em confinamento no Brasil vem crescendo nos últimos anos, sendo no último ano cerca de 6 milhões de cabeças abatidas nesse tipo de sistema (ABIEC, 2021). No entanto, este contingente de animais ainda é baixo quando comparamos com EUA, que abate 14,7 milhões cabeças anualmente (USDA, 2021). Do ponto de vista de potencial, podemos dizer que este número deve crescer ainda mais com o aumento da disponibilidade de grãos e seus co-produtos, associado à maior demanda por carne de qualidade da população, pressão para liberar área de pastagem para a agricultura, redução da emissão de gases do efeito estufa, dentre outros.

Os animais ruminantes, ao longo da história evolutiva, desenvolveram estratégias anatômicas, fisiológicas e nutricionais que os tornaram herbívoros extremamente eficazes. Estes animais se beneficiam das vantagens potenciais do pré-estômago – rúmen – sem restrições quanto à capacidade de consumo de alimentos como outros herbívoros, uma vez que que o peculiar mecanismo de separação de partículas presentes no retículo-rúmen, permite a retenção de parte do alimento que ainda requer maior digestão, ao mesmo tempo em que determina a passagem de material já digerido (Clauss et al., 2010). Em outras palavras, qualquer alimento “grosseiro” ingerido pelos bovinos, dependerá dos processos de mastigação e/ou ruminação para ter seu tamanho reduzido, ser degradado e sair do rúmen.

Em confinamentos de bovinos de corte, a inclusão de pequena porcentagem de fibra em dietas ricas em grãos ajuda a prevenir desordens nutricionais como a acidose e maximiza o consumo de energia líquida, permitindo ótimo desempenho zootécnico (Galyean & Hubbert, 2012). A principal função desta fibra é estimular a mastigação e posterior ruminação, que juntas, estimulam a produção de saliva que é um importante tamponante ruminal, por conter bicarbonatos e fosfatos. Entretanto, com a evolução das unidades de engorda intensiva no Brasil, que passaram a ganhar maior escala, a dependência de alimentos volumosos passa a ser um entrave devido a necessidade de área para produzir os alimentos volumosos, aquisição de máquinas e equipamentos, sem contar que dietas ricas em volumoso são mais difíceis de manipular e são menos estáveis no cocho. Por fim, podem não permitir consumo de energia suficiente para otimizar o desempenho animal (Paulino et al., 2010).

Devido a habilidade do ruminante em digerir fibra para obter energia e o receio de predispor os animais a distúrbios metabólicos devido ao uso de dietas com alta inclusão de grãos, o uso de dietas sem fibra oriunda de volumoso em confinamento era escasso no Brasil até 15 anos atrás, enquanto nos Estados Unidos, este tipo de dieta já era utilizado na década de 70 (Paulino et al., 2010).

De maneira geral, grãos de cereais, representam a principal fonte de energia em rações de bovinos de corte terminados em confinamento (Owens et al., 1997; Santos, 2007). Segundo pesquisa realizada por Silvestre e Millen (2021) junto a 36 nutricionistas envolvidos diretamente em trabalhos de consultoria em confinamentos de bovinos de corte, 97,2% dos participantes recomendam a inclusão de concentrado de 71 a 90% com base na matéria seca. Rações com teores mais altos de grãos propiciam ganho de peso mais rápido, melhor conversão alimentar, carcaças com melhor acabamento e menores custos operacionais no confinamento, o que pode tornar a atividade mais rentável (Preston 1998, Carareto, 2011). Enquanto nos USA os nutricionistas buscam maximizar o uso do amido (milho floculado), aqui no Brasil, ainda há oportunidade de utilizar milho processado (moído grosso ou fino) ou até mesmo inteiro (sem moagem) para obter boas lucratividades na engorda em confinamento.

O resultado de não processar (moer, triturar, ensilar e flocular) o milho é a baixa taxa de passagem e menor degradação ruminal do amido quando comparado com o milho floculado e o milho com alta umidade (BRITTON, 1987). Além de estimular a mastigação e ruminação possibilitando a engorda eficiente de animais em confinamento. Embora alguns bovinos sejam capazes de consumir grandes quantidades de amido quase que imediatamente e sem consequências adversas, mudanças graduais no rúmen de um ambiente de digestão de fibra (degradação de carboidratos estruturais) para digestão de amido (degradação de carboidratos não estruturais) são desejáveis para saúde e bom desempenho de animais confinados. Essa mudança gradual tem como objetivo promover aos microrganismos do rúmen, que produzem produtos desejáveis ou regulam a taxa de fermentação, ambiente favorável para se estabelecerem, enquanto minimiza a chance de crescimento demasiado de microrganismos ruminais menos desejáveis. Isso geralmente está ligado às rações usadas no período de adaptação, que é um dos mais críticos durante o período de alimentação, mesmo este representando menos de 20%, aproximadamente, do tempo total de cocho para a maioria dos bovinos confinados (Brown e Millen, 2009).

Dentre os protocolos de adaptação disponíveis na literatura, o mais recomendado para a transição pasto para milho inteiro + pellet (M+P) é o protocolo conhecido por escadas ou step-up. Este protocolo consiste em gradativamente substituir o capim pela ração (M+P). Recomenda-se ofertar do dia 01 ao 04 ao redor de 1% do peso vivo da ração 80% milho + 20% pellet, e realizar aumentos na faixa de 0,2 a 0,3% do peso vivo a cada 2 dias sempre que os animais limparem o cocho; até que os animais atinjam o consumo diário de 1,8% PV da ração. Ao atingir esse consumo, recomenda-se ajustar a dieta para 85% Milho + 15% Pellet e fechar os animais no confinamento, sem permitir mais o acesso ao pasto. Existem outros protocolos de adaptação para dietas M+P, é possível utilizar feno, silagem de milho ou sorgo e até a possibilidade de fechar os animais diretamente no confinamento sem prévia adaptação. Todos os protocolos funcionam, mas é necessária uma atenção no manejo de cocho para evitar refugos de cochos e distúrbios metabólicos, que podem prejudicar o desempenho zootécnico dos animais.

Como a dieta é composta basicamente por milho inteiro e pellet, é imprescindível que o milho esteja íntegro e com tamanho adequado, capaz de estimular a mastigação dos animais. Segundo Mertens (1997), partículas de forragem maiores que 1,18 mm têm efetividade física para estimular a ruminação dos animais, entretanto, Goulart (2010) reportou que fontes diferentes de fibra apresentam características distintas quanto sua natureza química e física o que influencia, por consequência, o valor real da efetividade de cada alimento. Para o grão de milho inteiro adota-se a efetividade de 100%, pois, por estar inteiro, obriga o animal a ruminar e mastigar o milho em frações menores (ANDERSON; MERRILL; KLOPFENSTEIN, 1988). O pellet será fonte de macro e microminerais, proteína, aditivos, vitaminas e tamponantes. Ele precisa ter tamanho e comprimento próximo ao tamanho do milho para permitir que o animal ingira sem haver seleção. Para que o pellet não desmanche antes de ser ingerido, o processo de peletização precisa ser realizado de maneira impecável e é recomendável obter um PDI (pellet durability index) maior que 98%. O teste de durabilidade do pellet ou PDI é um teste mundialmente aprovado cujo objetivo é simular uma situação real de manuseio, desde o carregamento na fábrica até a chegada no comedouro do animal. É um teste abrasivo onde o pellet é tombado em uma caixa com barreiras metálicas por um certo período com rotações conhecidas. Além da qualidade do pellet, a Cargill Alimentos Ltda tem como premissa desenvolver núcleos e concentrados que contém valores de micronutrientes acima da recomendação do NASEM 2016, com o objetivo de fornecer nutrientes com qualidade e em quantidade para o máximo desempenho animal.

Durante o período de adaptação é comum observar maior quantidade de grãos de milho inteiro nas fezes, mas esta quantidade irá reduzir com o aumento dos dias em confinamento. Levando em conta que a dieta é composta por 80-85% de milho inteiro, não é de se estranhar que encontrar milho inteiro nas fezes de animais alimentados com milho inteiro seja comum. Dois autores (Gorocica-Buenfil e Loerch 2005) conduziram 3 experimentos com milho moído versus inteiro e encontram em 1 destes experimentos um valor superinteressante. Do total de grãos de milho inteiro ingeridos pelos animais, 92% dos grãos foram digeridos e não foram encontrados nas fezes. Trazendo em números, um dos tratamentos ingeriu 22.090 grãos e excretou somente 1.770, menos de 9%.

De 10 anos para cá, os nutricionistas têm recomendado manter um baixo valor de fibra oriunda de volumoso junto da mistura M+P durante todo o confinamento. Esta opção busca aumentar a segurança da dieta, pois como já comentado, a fibra tem papel importante para o bom funcionamento do rúmen. Além de aumentar o consumo diário de matéria seca e, concomitantemente, o aumento da ingestão diária de energia. O aumento da ingestão de energia resulta em aumento do GPD e possivelmente a eficiência alimentar (CMS, kg / GPD, kg). Estes dados foram confirmados por Marques (2011). Em sua dissertação, o autor comparou vários tipos de dietas, sendo uma dieta tradicional com M+P na relação 85/15, mais outros 2 tratamentos onde foi adicionado fibra oriunda do bagaço de cana, resultando nos tratamentos M+P, M+P+3% de fibra e M+P+6% de fibra, respectivamente. O CMS aumentou de 8,42 para 10,51 e 10,16 kg/cab.; já GPD, subiu de 1,19 para 1,58 – 1,55 kg/cab., respectivamente. Este trabalho mostrou o benefício da adição de fibra, entretanto, é possível se obter ganhos tão bons quanto ao trabalho, sem adição de fibra, seguindo as recomendações citadas neste texto.

Existem diversas formas de manejo de cocho aplicados em confinamento. Os mais utilizados são manejo de cocho ad libitum (à vontade), oferta restrita da dieta de terminação e por fim, manejo de cocho limpo. Para a dieta M+P, recomenda-se trabalhar com dieta ofertada à vontade, ou seja, é imprescindível haver um pouco de dieta (M+P) no cocho durante o dia todo, a fim de evitar picos de consumos, menor tempo em mastigação e riscos de acidose. O processo de mistura do milho inteiro + pellet é simples e pode ser feito no chão, na betoneira, misturadores verticais, em vagão rotor mixer ou de mistura total (TMR). Não podemos deixar de citar que é dever de casa prover aos animais fácil acesso à água de qualidade. Ofertar 1 a 2 vezes a dieta por dia, já é suficiente. Como o manejo da dieta (M+P) é mais simples, quando comparado a confinamentos onde há a produção de silagem, moagem do milho etc., alguns confinadores esquecem de anotar as quantidades ofertadas diariamente por baia. O gerenciamento dos dados é fator crucial para o atingimento da lucratividade na dieta (M+P). Com esses dados em mãos, é possível analisar se o consumo diário/animal está dentro do previsto, detectar oscilações de consumo e por fim, realizar o fechamento do que foi gasto versus a receita bruta obtida.

Quanto a rentabilidade do sistema de engorda com milho inteiro, é importante ressaltar que como a dieta é composta basicamente por 80 a 85% de milho, consequentemente o custo da saca deste ingrediente irá refletir diretamente no custo da diária do animal. Hoje em dia, o custo da tonelada de matéria seca da dieta convencional com baixo teor de fibra gira em torno de R$ 1.193 a 1.533/ton MS de acordo com o Benchmarking Cargill publicado em maio/2021.

Além dos benefícios técnicos apresentados neste texto, segue abaixo uma simulação que demonstra os resultados financeiros com base na variação no custo da saca de milho versus valor da @ do boi gordo. Os valores utilizados nesta simulação estão a seguir: Custo de compra boi magro (RC 50%) e venda boi gordo (RC 54%) iguais (R$ 330,00/@); GPD: 1,45 kg/cab.; custo milho inteiro R$ 1,35/kg (R$ 81/sc); custo pellet R$ 3,80/kg; custo operacional R$ 0,50/cab./dia e por fim, R$ 15,00/cab para vacinas e vermífugo.

Com base nas informações apresentadas neste texto e as referências utilizadas nesta simulação, é possível assegurar que o uso da dieta com milho inteiro (M+P) é uma alternativa viável para pecuaristas que desejam engordar seus animais.

Tabela 1. Impactos da variação de preço da saca do milho e valor da @ boi gordo no retorno por animal

Referências bibliográficas

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