Aplicação de probióticos como estratégia de equilíbrio na microbiota de frangos de corte

Compartilhar:
Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on whatsapp

As crescentes restrições ao uso de antibióticos em dietas animais, tanto na forma de melhoradores de desempenho quanto em sua forma terapêutica, são uma realidade em 100% da indústria avícola europeia, onde desde janeiro de 2006 os promotores de crescimento foram banidos. E atualmente, esta tendência tem chegado em outros países que produzem frangos de corte, como por exemplo os Estados Unidos, onde os números consolidados demonstram que em torno de 60% dos frangos produzidos no ano de 2019 foram criados sem qualquer tipo de antibióticos, segundo Greg Renier (PhD e presidente da Rennier Associates Inc.). No caso do Brasil e seu papel como maior exportador mundial de carne de frangos, nos direciona a acompanhar esta tendência mundial, adotando estratégias de redução do uso de antibióticos na sua forma terapêutica e ampliar cada vez mais a nossa produção livres de antibióticos como promotores de crescimento.

É de consenso geral para a indústria avícola que para se manter os mesmos parâmetros produtivos em frangos de corte produzidos sem o uso de antibióticos no alimento ou de forma terapêutica, se deve promover uma adequada saúde intestinal, tornando-se cada vez mais importante para o meio acadêmico gerar informações e maiores conhecimentos sobre os principais fatores que devem estar em equilíbrio no intestino para que as aves possam digerir e absorver os alimentos de forma otimizada, além de gerar produtividade e rentabilidade para a indústria avícola. A ciência deve entender os mecanismos pelos quais a sucessão bacteriana ocorre no trato gastrointestinal em coordenação com o hospedeiro se quisermos identificar alternativas livres de antibióticos para modular a microbiota, prevenindo enfermidades e melhorando o desempenho das aves.

Discutindo com mais enfoque o tema da microbiota intestinal, estudos cada vez mais detalhados da microbiota intestinal das aves tem emergido nos anos recentes, grandemente devido ao impacto das novas técnicas ou novas gerações de sequenciamento molecular. Estas técnicas de sequenciamento têm possibilitado o reconhecimento de uma complexa comunidade de bactérias e sua grande importância na saúde das aves, desenvolvimento do intestino e do sistema imunológico, além da manutenção da homeostase intestinal (Oakley, et. al, 2014). Adicionalmente, em conjunto com os dados do censo taxonômico baseado no gene 16S rRNA, a metagenômica começou a atender as primeiras expectativas de evoluir nossa compreensão das comunidades microbianas (NRC Committee on Metagenomics, 2007).

Dentro das diversas estratégias alternativas aos antibióticos promotores de crescimento, as diferentes classes de aditivos probióticos se configuram como uma importante ferramenta dentro de uma programa de aditivos alternativos aos promotores de crescimento. Seu papel na promoção da saúde e melhoria de performance é um dos mais consolidados na produção avícola devido ao seu pioneirismo no mercado de aditivos naturais e alto índice de adoção pelo mercado.

Os probióticos podem influenciar diretamente a colonização pela microbiota intestinal através de múltiplos mecanismos, incluindo a produção de substâncias inibidoras de crescimento, tais como bacteriocinas e ácidos graxos de cadeia curta, produção de enzimas digestivas que auxiliam o processo de otimização da absorção de nutrientes, produção de substratos que promovem o crescimento de microbiota benéfica, tais como vitaminas, ácidos graxos, açúcares a partir de carboidratos que não são digeridos pelas aves, entre outros; além de promover repostas imunológicas contra determinadas enterobactérias patogênicas (Sanders, et al.). Além disso, de forma indireta, os probióticos podem influenciar na colonização da microbiota intestinal através da inibição da aderência de Enterobactérias patogênicas pela estimulação da produção de muco pelas células caliciformes, reforçando o papel da barreira intestinal e contribuindo na Imunomodulação das respostas inflamatórias no ambiente intestinal, gerando um ambiente favorável para a prevalência de uma microbiota associada a um intestino fisiologicamente saudável.

Atualmente, este grande avanço das técnicas moleculares já mencionado neste texto e que permitiram uma evolução incrível na identificação e mapeamento da diversidade da microbiota intestinal, tem evidenciado uma grande complexidade desta microbiota e este fato tem trazido uma grande dificuldade na sua interpretação e no estabelecimento de correlações necessárias para compreender o seu papel e impacto na performance e saúde dos plantéis avícolas. As tecnologias e métodos estão constantemente mudando e se aprimorando, o que dificulta a comparação de dados históricos, comparação de experimentos e bancos de dados, impedindo possíveis análises estatísticas ou metanálise de todos estes dados para gerar tendências ou conclusões relevantes. Este é o desafio atual para os pesquisadores na busca de tornar estas informações de mapeamento de microbiota relevantes para a indústria avícola.

Tanto a complexidade quanto as variabilidades na composição da microbiota mencionadas estão diretamente impactadas por aspectos tais como a linhagem das aves, sexo, idade, condições microbiológicas do incubatório (colonização inicial do intestino), ambiente das granjas (condições de manejo e qualidade de água de bebida), histórico dos lotes anteriores, desafios infecciosos e parasitários e tipo de dieta; e é de consenso que todos estes fatores são muito difíceis de controlar e uniformizar estas variáveis.

Porém, um ponto essencial dentro de estratégias para reduzir os impactos destas variabilidades na microbiota ou em situações que necessitam de intervenções através do uso terapêutico de antibióticos, reside no fato de que a administração de probióticos contribuem para diminuir a magnitude de um desequilíbrio de microbiota ou para o restabelecimento mais rápido da microbiota normal no ambiente intestinal (Sanders, et al.).

Recentemente, autores tais como Yaman et al.; Mountzouris et al.; e Higgins demonstraram que espécies de probióticos pertencentes aos Lactobacillus, Streptococcus, Bacillus, Bifdobacterium, Enterococcus e Saccharomyces possuem o efeito potencial de modulação da microbiota intestinal e inibição de Enterobactérias patogênicas.

Vários estudos têm demonstrado a habilidade de cepas de Bacillus subtilis serem capazes de reduzir a colonização por bactérias patogênicas muito impactantes para a indústria avícola tais como Clostridium perfringens, Salmonella entérica e E. coli (Baltzley et al; Knap et al.; Allaart et al.; Barbosa et al.; Klose et al; Teo et al.)

Outro benefício importante dos probióticos reside no fato de que várias cepas de Bacillus subtilis tem sido descritos seus efeitos em acelerar a maturação da microbiota e favorecer o ambiente intestinal para a prevalência de bactérias benéficas do gênero Lactobacillus spp entre outras bactérias produtoras de ácido lático, criando um ambiente anaeróbico positivo devido ao rápido uso de oxigênio que ocorre através das formas vegetativas dos esporos dos Bacillus administrados através do probiótico (Hoa et al; Jeong et al.); proporcionando um ambiente desfavorável para o crescimento de bactérias Enteropatogênicas.

Em conclusão, os probióticos são ferramentas consolidas há muito tempo na avicultura industrial e dentro do contexto atual de crescente redução do uso de antibióticos, tanto na sua forma terapêutica ou em doses promotoras de crescimento, eles passam a exercer uma influência cada vez mais importante dentro das estratégias de programas com aditivos alternativos aos antibióticos.

+ posts
COMPARTILHE:

Notícias Relacionadas