No início de agosto de 2018, portanto há exatamente um ano, foram anunciados os primeiros casos de Peste Suína Africana (PSA) na China. Hoje já se fala em uma redução de rebanho entre 25% e até há especulações na ordem de 45%. Considerando a menor estimativa e um plantel de 38 milhões de fêmeas antes do início da peste, são quase 10 milhões de matrizes a menos, ou seja, mais do que o total de fêmeas em todas as Américas. Na verdade, não há números precisos, mas considerando que quase metade da carne suína do mundo era produzida na China, esta redução representará uma diminuição na oferta de no mínimo 12,5%.

Todavia, só agora estão aparecendo os primeiros sinais de falta de carne suína na China, na prática neste último ano pode-se até afirmar que houve sobra. Isto se deve a duas razões: a primeira é a redução da demanda, pois por mais que se afirme que a Peste Suína não traz nenhum risco à saúde humana, houve redução da sua procura na China; e a segunda razão é que grande parte dos planteis infectados não foram sacrificados. A maioria dos animais foram abatidos, vendidos ou estocados. Ou seja, a China viveu momentos de aumento significativo de oferta.

Em meio a este cenário desesperador, muitos produtores venderam para abate seus rebanhos inteiros, mas, em muitos casos, apenas eliminaram, ou melhor, seguem eliminando, apenas os animais que apresentam sintomas da doença, consequentemente, resultando na manutenção do vírus e em um rápido alastramento do mesmo pelo país e por todo sudoeste asiático – Vietnã, Camboja e o Laos.

 

A Peste Suína Africana está ficando mais fraca?

No momento, segue muita dúvida entre os produtores: será que a PSA está ficando mais fraca e é possível conviver com a mesma? Será que animais que resistiram ao surto (há relatos de que isto ocorre) podem passar para sua prole esta “resistência”? Estas são perguntas que escutei de produtores chineses durante minha última visita ao país asiático em junho deste ano. Todavia, na prática, com base no conhecimento científico atual, estes procedimentos fazem apenas com que o vírus não seja eliminado e o problema continue a se propagar.

Pelo que se sabe, a melhor “solução” até o momento para Peste Suína Africana é evitar a entrada do vírus, porém, se isto já ocorreu, só restam medidas para eliminação do mesmo, sendo o primeiro passo o sacrifício e descarte apropriado de todos animais contaminados ou que tiveram contato com o vírus. Há relatos de importantes progressos com o desenvolvimento de vacinas, mas ainda é difícil prever se ou quando o produtor poderá usufruir desta forma segura e eficiente de combate a enfermidades.

Neste cenário, o que se pode esperar é um agravamento do problema: mais animais infectados nos países onde a doença já está presente e, muito provavelmente, um aumento do número de países/regiões infectados. A quantidade de vírus no “ambiente” é gigantesca, e isto, com certeza, é um grande fator de risco. Desta forma, é extremamente relevante intensificar e aperfeiçoar medidas de biossegurança.

Portanto, os países, regiões ou granjas ainda livres da enfermidade devem implantar rígidos protocolos de biossegurança. A imunidade dos planteis e animais devem ser preservadas ou fortalecidas.

O que esperar da suinocultura chinesa?

Com base neste cenário, o que é possível esperar da suinocultura chinesa? Na minha opinião o problema pode se agravar, caso ações governamentais estruturais não forem colocadas em prática. Além disso, muitas granjas têm dificuldade de implantar medidas de biossegurança que sejam efetivas. Há concentração da produção em algumas regiões e a suinocultura chinesa ainda tem grande parte da sua produção com baixo e médio nível tecnológico.

Por outro lado, já se percebe uma mobilização de produtores para repovoar granjas, pois há uma clara expectativa de que os preços no futuro serão muito bons. Entretanto, a tendência é que muitas destas granjas voltarão a se contaminar, pelos motivos já explanados anteriormente.

Espera-se também uma migração de consumo para outras carnes, especialmente frango e pescado. Além, é claro, do aumento das importações, não somente de carne suína, mas de todas as demais proteínas animais. Todavia, não há carne no mundo para suprir esta demanda.

Não esquecendo que, devido a questões político-comerciais, a carne de dois importantes exportadores, Estados Unidos e Canadá, não deverá chegar ao consumidor chinês.

Ainda se espera incrementos muito significativos nos preços das carnes e, sem dúvida, este cenário provocará estímulos para o aumento da produção no mundo inteiro. Vejo isto como uma grande oportunidade de curto e médio prazos, porém com riscos envolvidos no médio e longo prazos!

A carne suína é componente forte da cultura chinesa, por isto, não se imagina que haverá uma redução duradoura no consumo desta proteína e, muito menos, se espera que a China aceitará ser dependente de importação por muito tempo.

Fazendo um correlato, sempre que retorno à China fico impressionado pelo seu crescimento e capacidade de planejamento e execução. Por exemplo, bairros antigos são substituídos por novas avenidas largas e arborizadas, e apenas depois da infraestrutura pronta é que apartamentos são construídos. Se fizerem com a suinocultura o que fazem com as cidades, terão uma das suinoculturas mais modernas e eficientes do mundo. Na minha opinião, é apenas questão de tempo.

 

A PSA poderá acelerar o processo de modernização da suinocultura chinesa.

Corroborando com esta expectativa, nos últimos anos houve uma forte política de substituição da suinocultura tradicional, que era baseada na subsistência e fundo de quintal. Antes mesmo da PSA, o número de matrizes já vinha decrescendo significativamente, mas sem impacto relevante na produção, indicando claramente o aumento de tecnificação da atividade. A Peste Suína Africana tem atingido todo tipo de granja, mas aparentemente, granjas de menos tecnológicas têm sofrido mais. Ou seja, a PSA poderá acelerar o processo de modernização da suinocultura chinesa.

Desta forma, diria que nos países onde não há Peste Suína Africana ou que esta esteja “controlada”, como na Rússia, há grande oportunidade para os suinocultores fazerem muito dinheiro nos próximos tempos. Por outro lado, todos terão que agir de forma muito estratégica para definir como aplicar estes recursos. Em momentos de “bonança”, geralmente o que primeiro ocorre é o aumento dos planteis, muitas vezes, sem muito planejamento ou preocupação por eficiência. Na minha opinião, o mais importante seria investir em tudo que leve a aumento de eficiência, isto pois, todos deverão estar preparados para quando a nova e moderna produção da China se estabelecer.

Por outro lado, não se pode baixar a guarda. Apesar de ainda não se saber o estrago total que a Peste Suína poderá provocar, já se pode afirmar que na história da moderna produção animal nunca houve uma tragédia tão grande. Portanto, os países e/ou produtores livres da doença devem se prevenir para que a peste suína não chegue até eles.

COMPARTILHE:


Versão de Impressão Versão de Impressão