Dentre os diversos desafios que os nutricionistas enfrentam, talvez o maior seja a falta de informações sobre a composição dos alimentos que utilizam para formular a dieta das vacas. Para os concentrados, especialmente os tradicionais como grãos de cereais ou farelo de soja, essa questão não é tão importante, pois a variabilidade natural é relativamente pequena e os valores tabulares nos dão estimativas bem próximas da realidade.

Mas com volumosos a coisa é bem diferente, principalmente em pastagens, que apresentam variação natural em sua composição em função da época do ano, do clima, da fertilidade do solo e do manejo do pastejo. No entanto, mesmo volumosos conservados, como a silagem de milho, podem apresentar variação bastante considerável em sua composição, o que pode ser desastroso na hora de formular as dietas na fazenda.

Os volumosos são o tipo de alimento com maior variação na composição nutricional. Normalmente são os que entram em maior quantidade nas dietas de vacas em lactação e, usualmente, são uma fonte econômica de nutrientes.

Alta variabilidade na composição nutricional dos alimentos volumosos ou falta de conhecimento sobre essa composição afetam a confiabilidade na formulação das dietas, o que, por sua vez, afeta muito negativamente a eficiência alimentar do rebanho e a lucratividade da fazenda.

Um levantamento feito pela equipe do Centro de Pesquisas em Forragicultura, da Universidade Federal do Paraná, avaliou a variabilidade na composição de 327 amostras de silagens de milho coletadas em 109 fazendas, de cinco estados brasileiros.

Em todos os parâmetros avaliados observou-se grande variabilidade nos resultados, de 98 a 891% entre os valores mínimos e máximos. Desde silagens de milho extremamente úmidas até silagens muito secas. Apenas 46,5% das silagens apresentaram teor de MS (matéria seca) dentro da faixa ideal, entre 30% e 35%. Ou seja, a variação normal observada entre silagens diferentes é, efetivamente, muito grande.

Silagem e o desempenho em rebanhos leiteiros

No entanto, mesmo dentro de uma mesma fazenda, ou mesmo em um mesmo silo, as variações podem ser bastante significativas. Para ilustrar o impacto que isso pode ter no desempenho de rebanhos leiteiros, vamos imaginar a seguinte situação:

Um nutricionista é contratado por uma fazenda para ajustar o manejo alimentar do rebanho leiteiro confinado, que tem como base da dieta a silagem de milho. Para avaliar a formulação das dietas, ele baseia-se em um laudo de análise bromatológica da silagem do ano anterior. Ele utiliza um modelo nutricional bastante robusto, e formula as dietas “como manda o figurino”, atendendo integralmente os requerimentos nutricionais das vacas de leite. No entanto, alguns dias depois da adoção da nova dieta, nota-se uma quebra na produção de leite e diversas vacas com diarreia, algumas até apresentando fezes com presença de sangue. Depois de muito investigar, o nutricionista decide enviar uma amostra da silagem para análise bromatológica e, quando o laudo chega, ele se dá conta de que a silagem deste ano apresenta 31% de MS e 46% de FDN, enquanto que a do ano anterior apresentava 35% de MS e 55% de FDN.

Ao formular as dietas com base na composição do ano anterior, o nutricionista assumiu um risco considerável, que acabou resultando em um problema significativo. Segundo a planilha do trato, os bovinos de leite do lote de alta produção deveriam receber 9 kg de matéria seca do volumoso, o que equivaleria a cerca de 26 kg de silagem. Dessa forma, as vacas deveriam ingerir cerca de 5 kg de FDN-F provenientes dessa silagem. Como a composição da silagem deste ano era diferente, com a oferta de 26 kg de silagem, na verdade as vacas estavam recebendo apenas 8 kg de MS do volumoso, que forneciam somente 3,7 kg de FDN-F, ou seja, 26% a menos do que o previsto na formulação.

Essa menor ingestão de FDN-F certamente contribuiu para que as vacas desenvolvessem um processo de acidose, pois, além da silagem, também receberam grande quantidade de concentrado à base de milho moído e farelo de soja. Esse exemplo simples ilustra bem o impacto que o desconhecimento da composição nutricional do volumoso pode ter na eficiência das vacas. Além da perda direta em leite, as vacas com acidose perdem peso e podem ter o desempenho reprodutivo comprometido, o que também se converte em prejuízo ao produtor de leite.

Composição da Silagem na prática

Mas, na verdade, no dia a dia de uma fazenda a coisa é bem mais complicada. Ter um laudo de análise bromatológica que norteie a formulação das dietas é apenas parte da história. O monitoramento do teor de matéria seca da silagem é fundamental para manter a uniformidade das formulações. Esse parâmetro é bastante variável, já que um silo de milho não apresenta teor de MS constante ao longo do tempo. Se hoje o nutricionista formula a dieta das vacas considerando que a silagem tem 35% de MS e ele pretende oferecer a elas 10 kg de MS dessa silagem, vai prever o fornecimento de 28,6 kg da silagem. Se esse parâmetro não for monitorado e na semana seguinte a silagem apresentar 31% de MS, variação perfeitamente possível, as vacas passarão a receber apenas 8,9 kg de MS, ou seja, 11% menos do que o previsto.

Para evitar esses problemas é imprescindível que o teor de MS da silagem seja monitorado pelo menos uma vez por semana. A oferta de silagem deve ser ajustada de acordo com a variação nesse parâmetro, de forma a manter a oferta de MS do volumoso e, consequentemente, manter constante a dieta das vacas. Monitorar o teor de MS da silagem é um processo bastante simples, que pode ser feito até em um forno de micro-ondas convencional.

Outro processo simples, mas que pode ter um impacto muito grande na formulação, é a coleta das amostras para enviar ao laboratório de bromatologia. Essa pode ser uma grande fonte de erro, com efeitos significativos. A amostra deve ser representativa de todo o material dentro do silo e, por isso, não pode ser coletada em um único ponto. Por exemplo, se um silo demorar de 10 a 15 dias para ser enchido, a variação nos teores de MS e FDN entre o material armazenado próximo à superfície e o que fica na parte inferior do silo pode ser de mais de 30%. Dessa forma, é fundamental que a amostra seja coletada no momento da retirada do material do silo, quando deve ser cortada uma “fatia” do painel, contendo material da superfície, do meio e da parte inferior.

A partir dos aspectos discutidos aqui fica evidente que desconhecer a real composição dos alimentos, especialmente dos volumosos, pode custar muito caro para o produtor de leite. A variabilidade normal observada na composição das silagens de milho já é bastante elevada, de forma que é imprescindível empreender todos os esforços para que a formulação das dietas seja baseada em informações precisas sobre a composição dos alimentos.

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