Produtores estão aprendendo que o desempenho da bezerra nas primeiras semanas de vida tem um enorme impacto no desempenho produtivo do animal ao longo de toda sua vida produtiva. Na verdade, hoje sabemos que fatores externos como calor e outros tipos de estresse, por exemplo, podem afetar o desempenho futuro da bezerra mesmo antes do seu nascimento quando ela ainda está no útero da sua mãe! Assim, o objetivo deste artigo é discutir alguns aspectos críticos e de cunho prático a serem considerados na fase inicial de aleitamento de bezerras leiteiras de forma a se evitar perdas de desempenho produtivo e de saúde na futura vaca. Foco será dado à fase de aleitamento pós-colostragem por se tratar de uma fase normalmente negligenciada no sistema produtivo de bezerras.

Um bom objetivo em termos de ganho de peso na fase de aleitamento de uma bezerra é conseguir dobrar o peso dessa bezerra do seu nascimento aos 60 dias de vida. Sendo que estudos mostram que aumentos no ganho de peso na fase inicial de aleitamento de apenas 100-200g a mais por dia, são extremamente benéficos para o potencial produtivo da futura vaca como fica evidente conforme os dados da Figura 1.

Figura 1 – Relação entre o ganho de peso de bezerros entre 17 aos 65d de vida no período de aleitamento e o impacto na produção da futura vaca – Adaptado de Castells et al. 2015.

Portanto, um maior ganho de peso inicial está relacionado com maior potencial produtivo na futura vaca, porém ganhos de peso acima de 1kg por dia durante os primeiros 60 dias de vida – geralmente estimulados com grandes volumes de ingestão líquida de leite/sucedâneos – podem aumentar ainda mais o ganho de peso inicial, mas esta estratégia em geral vai atrasar o desenvolvimento ruminal, diminuir a ingestão de concentrados e dificultar o desmame e provavelmente piorar a performance da bezerra no período pós-desmama. Consequentemente, recomenda-se um balanço entre estratégia de dieta líquida e concentrados para maximizar ganhos de peso iniciais sem atrasar o desenvolvimento ruminal para facilitar a transição da bezerra para o período pós-desmama.

No Brasil existem várias estratégias utilizadas por produtores como uso de leite descarte, geralmente proveniente de vacas diagnosticadas com mastite e tratadas com antibióticos intra-mamários e/ou leite de vacas com altas contagens de células somáticas; uso de leite integral proveniente do tanque; ou alternativamente existe a possibilidade de utilizar sucedâneos lácteos. Atualmente o uso da pasteurização do leite descarte ou do leite integral de tanque também é bastante comum e altamente recomendada a campo para minimizar problemas com patógenos. Infelizmente, em respeito ao processo de pasteurização do leite a ser ofertado para bezerros, é importante ressaltar que muitas vezes o protocolo e tipo de pasteurização realizado em fazendas comerciais no leite destinado para alimentação de bezerras deixa a desejar, o que pode resultar em uma pasteurização malfeita com patógenos ainda vivos no leite mesmo após sua pasteurização. Assim, o técnico deve avaliar com cautela o processo de pasteurização rotineiramente usado em fazendas de leite antes de assumir erroneamente 100% de eficiência na eliminação de patógenos por esse processo.

Realisticamente, fazendas de leite no Brasil comummente utilizam o leite descarte proveniente de vacas no período de carência após uso de antibióticos e/ou animais com altas contagens de células somáticas (CCS). Esta prática ocorre, pois, o produtor tende a “aproveitar” o leite que não poderia ser enviado ao laticínio de forma a diluir os custos de produção no bezerreiro. O problema é que esse tipo de manejo implica em problemas de disponibilidade deste leite descarte, que vai flutuar em volume diário de acordo com o número de vacas tratadas com antibióticos; outro problema é que a composição do leite descarte a ser oferecido às bezerras muda sua constituição todo dia! pois casos de mastite vão modificar as propriedades nutricionais (gordura, proteínas, etc) do leite; e muitas vezes esse leite está contaminado com patógenos muito nocivos (ex: tuberculose, leucose e outros) ou que ainda podem contaminar os tetos das bezerras como ocorre com Staphylococcus aureus (o qual pode contaminar o úbere das bezerras mesmo antes do primeiro parto); resíduos de antibiótico no leite oferecido para bezerros são comuns e podem diminuir sua capacidade digestiva após o desmame e afetar negativamente o crescimento estrutural do bezerro; mais importante, o uso de leite com resíduo de antibióticos representa um potencial risco para saúde humana decorrente da exposição da flora intestinal do bezerro a níveis variáveis de antibióticos com potencial aparecimento de bactérias adquirindo mecanismos de resistência contra estes antibióticos. Assim esses fatores, em particular a inconsistência nutricional diária do leite descarte, vão afetar o crescimento e saúde da bezerra como demonstrado anteriormente por muitos grupos de pesquisa. Hill et al. (2008) demonstraram que alimentar bezerros de forma inconsistente – mesmo que na mesma quantidade total – vai diminuir ganhos de peso e ingestão de ração inicial, evidenciado pela menor eficiência alimentar. Assim, devemos evitar variações em termos nutricionais do leite, de sua temperatura e obviamente horário do dia que é ofertado aos animais.

 

Figura 2 – Variação de sólidos em amostras de leite descarte em fazendas na California. Cortesia Dr. Jim Quigley – Cargill USA (adaptado de Moore et al. 2009).

Outra opção de aleitamento de bezerros é o uso de leite convencional integral de tanque (não descarte) – de preferência pasteurizado de forma correta! Apesar do leite convencional integral ser uma ótima opção em relação ao uso de leite descarte com resíduos de antibióticos de vacas tratadas para mastite, pois sua composição é consistente e não existe o problema de variação de oferta, devemos saber que o leite da vaca não contém todos nutrientes que o bezerro necessita! Em particular em termos de elementos traço e vitaminas como indicado na tabela abaixo.

 

 

Tabela 1 – Constituintes minerais, traço e vitaminas do leite integral em comparação às necessidades nutricionais de bezerros em fase de aleitamento.

Desta forma, sucedâneos modernos de alta digestibilidade muitas vezes podem ser uma forma mais segura em termos sanitários e que possibilita menor variação nutricional no dia-a-dia durante o processo de aleitamento. Além disso, seu menor custo em relação ao leite integral, juntamente com a praticidade de manejo representam pontos muito importantes e relatados por rebanhos que utilizam sucedâneos na alimentação de bezerros. Baseado nesses argumentos, é importante que produtores e técnicos tenham um bom entendimento do desenvolvimento científico que ocorreu nas últimas décadas para o desenvolvimento dos sucedâneos contemporâneos – muito diferentes dos sucedâneos pioneiros. Assim, temos que desmitificar alguns conceitos ultrapassados em relação a formulação de sucedâneos mais modernos que tendem a bloquear a adoção de sucedâneos por parte de alguns consultores e rebanhos. Por exemplo, devido ao desenvolvimento do conhecimento & processamento de proteínas vegetais, assim como qualidade da emulsificação de gorduras nos dias de hoje, fontes de proteínas e gorduras vegetais podem sim ser utilizados em certa proporção como constituintes de sucedâneos atuais, desde que a porcentagens de fibra total no sucedâneo sejam abaixo de 0.5%. Apesar da possibilidade do uso de proteína vegetal na confecção de sucedâneos, obviamente sucedâneos de melhor qualidade são aqueles que contém a maior parte de fonte proteica de origem láctea.

Ainda, os sucedâneos desenvolvidos nos últimos anos podem fornecer um perfil de ácidos graxos muito similar ao leite dando suporte ao crescimento, melhorar a capacidade imune e saúde na fase inicial de vida do bezerro, o que não era o caso dos sucedâneos mais antigos que em geral tinham um perfil não ideal de ácidos graxos e substratos de baixa digestibilidade. A correção da proporção proteína: gordura é outra vantagem encontrada em sucedâneos & suplementos lácteos atuais em relação ao uso do leite integral. Em suma, sabemos que aumentar a proporção de proteínas no leite em relação à gordura é benéfico ao desenvolvimento estrutural dos bezerros.

Apesar de todas essas vantagens na utilização de sucedâneos, erros de manejo como utilização de água de qualidade ruim, diluição feita em temperaturas fora do recomendado, ou mesmo proporção errada de diluição dos sucedâneos são comuns e devem ser monitorados constantemente e corrigidos imediatamente dentro de uma rotina de alimentação de bezerros.

Estes são alguns pontos críticos a serem considerados na fase inicial dentro de um programa alimentar para bezerros em fases iniciais. Obviamente, a melhor estratégia de manejo e opções para cada propriedade devem ser avaliados caso a caso por um técnico responsável de forma a balancear custos, riscos e benefícios de cada sistema de alimentação mantendo em mente que o manejo de fases iniciais da bezerra podem afetar o desempenho da futura vaca pelo resto da sua vida produtiva!

 

 

 

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