Muito vem sendo discutindo sobre a necessidade de sombra para animais confinados no Brasil. O racional é simples: o custo para instalação, seja uma cobertura de alvenaria ou sombrite, é compensado com melhor performance do gado? Alguns dados de pesquisa sugerem que o investimento não compensa, como os trechos retirados das publicações abaixo:

“Uma vez que os animais são aclimatados ao calor, não há nenhuma vantagem com a utilização de sombra” Mader et al., 1999.

“O uso de sombra não melhora o ganho de peso e a conversão alimentar de bovinos em confinamento”. Boyd et al., 2015

No entanto, sabemos que ao se trabalhar com animais e sistemas biológicos, alcançar respostas definitivas para questões multifatoriais não é tarefa simples. As pesquisas citadas acima foram desenvolvidas nos EUA, com outras raças (predominantemente britânicas), em outras condições climáticas e de dieta. Será que na prática, no Brasil, as hipóteses americanas são verdadeiras?

Resolvemos avaliar isso no Brasil na forma de um estudo controlado no confinamento da Agropecuária Brunozzi, de Campina Verde, Minas Gerais (Figuras 1 e 2). O estudo passou por crivo estatístico da equipe de análise de dados da Nutron/Cargill e seguiu um protocolo experimental validado pela academia. Ao todo foram avaliados 2.497 animais, distribuídos em 22 currais. A área média de sombra por curral foi de 650 m2 resultando em 4.64 m2 por cabeça, em média.

Para o estudo levamos em consideração a natureza multifatorial do problema, incluindo as perguntas que o produtor deve considerar antes de seguir com a instalação de sombra, por exemplo:

  • Raça: trabalho com nelore ou animais cruzados?
  • Dias de cocho dos animais;
  • Tipo de dieta fornecida aos animais;
  • Em que local do curral devo instalar a cobertura?

 

Figura 1 – Confinamento com cobertura de alvenaria da Agropecuária Brunozzi, de Campina Verde – MG, evidenciando a procura por sombra dos animais nelore nos momentos mais quentes do dia.

 

Figura 2 – Vista aérea do confinamento da Agropecuária Brunozzi, Campina Verde, MG, evidenciando a linha com cobertura parcial de alvenaria.

 

Raça, dias de cocho, dieta e local da sombra   

Sabe-se que animais zebus são mais adaptados aos trópicos, mas isso não quer dizer que não sejam afetados com o excesso de umidade e calor, e percam produtividade em situações comumente encontras no Brasil. A métrica mais utilizada para avaliar as condições ambientais e seu efeito sobre o bem-estar animal é o THI, o Índice de Temperatura e Umidade, em tradução livre do inglês. Esse índice correlaciona variações de temperatura e umidade e pode ser avaliado conforme a fórmula abaixo (Mader et al., 2006):

  • THI = (0.8 × TA) + [(RH × 0.01) × (TA -14.4)] + 46.4, onde:

TA = Temperatura ambiental;

RH = Umidade relativa do ar.

O THI é uma função das duas variáveis mencionadas na equação acima, ou seja, quanto maior for a umidade e/ou temperatura, maior o índice, e maior o estresse sobre os animais. Veja um resumo na Figura 3 abaixo:

Figura 3 – Relação entre temperatura e umidade relativa na composição do THI.

Dias de cocho é outro fator determinante do desafio sobre os animais. Isso porque quanto maior o tempo no cocho, maior a porcentagem de gordura na composição de carcaça, e maior o desafio para troca de calor. Um estudo demonstrou que novilhas com maior escore de acabamento apresentaram mais sinais de estresse por calor quando comparado a novilhas com menor escore (Brown-Brandl et al. 2006).

A dieta também é fator de extrema relevância. Isso porque animais ruminantes possuem uma câmera fermentativa, o rúmen, que fermenta substratos energéticos com consequente geração de calor. Em resumo, ingredientes de mais fácil fermentação ruminal tendem a gerar mais calor e podem aumentar o desafio sobre os animais, enquanto ingredientes que passam intactos a degradação ruminal e são absorvidos no intestino, ou que tem uma taxa de fermentação mais lenta, podem ser uma opção para redução do estresse calórico.

O local de instalação da sombra, assim como a altura da estrutura, também merece atenção especial. Não é desejável acúmulo de animais ou de fezes próximo ao cocho, para que não haja limitação de acesso ao alimento e perda de desempenho do lote. Por isso, uma área mínima por animal deve ser respeitada. A altura da estrutura também influencia na área de sombra total gerada, que deve ser avaliada em m³. Isso determina o total de sombra por cabeça (m³) e o horário em que os animais terão acesso a sombra. É desejável que os animais tenham sombra nos períodos mais quentes do dia, ou seja, entre 11h e 16h, por exemplo. Além disso, a altura da estrutura é importante para evitar o acúmulo de gases que podem interferir no desempenho e saúde animal.

Resultados do estudo

A alta temperatura e umidade do local onde o trabalho foi realizado é evidenciada pelo uso da câmera de infravermelho que permite uma avaliação mais detalhada do efeito do THI sobre os animais (Figura 4 abaixo).

Figura 4 – Imagem com infravermelho de dois animais em diferentes situações de estresse calórico.

A tabela 1 mostra a variação de temperatura, umidade e do THI ao longo do estudo, evidenciando situações extremas, com valores altos de THI (acima de 79, valor considerado perigoso pelo Livestock Weather Safety Index, índice utilizado para determinar o nível de estresse por calor). Esses valores se refletiram no escore de frequência respiratória, principalmente para animais sem sombra. Animais submetidos a sombra apresentaram 99% dos animais com respiração normal, enquanto para os sem sombra, 16% apresentaram respiração ofegante durante as avaliações visuais. O índice de animais ofegantes é comumente utilizado para avaliação visual de estresse por calor em bovinos de corte.

Tabela 1 – variação de temperatura, umidade e do THI ao longo do estudo.

Variáveis zootécnicas sugerem que o uso de sombra pode trazer benefícios produtivos

  • A conversão alimentar e biológica para animais com sombra foi 11 e 15% melhor, respectivamente (Tabela 2);
  • O consumo de matéria seca foi 8% menor para os animais submetidos ao tratamento com sombra, sem efeito sobre o ganho de peso. De maneira geral, o consumo de matéria seca em animais submetidos a temperaturas extremas é reduzido (< -15° ou >25°; NRC, 1981), com aumentos de consumo quando sombra é oferecida nessas condições (Brown-Brandl et al., 2005). Portanto, nossas observações podem estar relacionadas com as características genéticas e comportamento de consumo de animais nelore e suas interações com a dieta oferecida no estudo (54% amido; 1.36 Mcal ELg) e as condições climáticas do local.

Tabela 2 – Efeito da sombra para bovinos confinados sobre variáveis zootécnicas de performance.

  • Durante todo o período de estudo, o consumo de água foi, em média, 4 litros menor por dia, para os animais submetidos a sombra (Veja relação entre consumo de água e THI na figura 5 abaixo). Para um confinamento de 10 mil cabeças isso representa uma economia potencial de 4 milhões de litros, em média, por giro.

Figura 5 – Relação do THI e dos tratamentos com e sem sombra sobre o consumo de água (L/cab/dia) nos primeiros 23 dias do estudo.

Mas e a avaliação econômica. Vale a pena investir em sombra para o gado?

Para a situação do estudo em discussão o custo do metro quadrado de cobertura foi de R$ 120. Em resumo, consideramos 2,5 giros por ano, um investimento de R$ 360 por cabeça, um valor médio de depreciação de R$ 14,4/cab e um retorno adicional com os benefícios produtivos de R$ 50 por cabeça. Assim, na situação do estudo, chega-se a 2,8 anos para pagar o investimento.

O uso de sombra em confinamentos pode sim trazer benefícios para animais nelores em situações tropicais. A decisão de uso depende de algumas variáveis e exige uma avaliação específica para cada situação e objetivo produtivo. Portanto, o uso de sombra para animais confinados deixa de ser um paradigma e merece mais estudos aplicados a realidade Brasileira.

 

 

A Nutron agradece a Agropecuária Brunozzi pela confiança e parceria duradoura. A inovação e o compartilhamento de boas práticas tem sido fundamentais para a evolução do setor pecuário Brasileiro.

 

 

Referências

Boyd, B. M., S. D. Shackelford, K. E. Hales, T. M. Brown-Brandl, L. M. Bremer, M. L. Spangler, T. L. Wheeler, D. A. King, and G. E. Erickson. 2015. Effects of shade and feeding zilpaterol hydrochloride to finishing steers on performance, carcass quality, heat stress, mobility, and body temperature. J. Anim. Sci. 93(12):5801–5811.

Brown-Brandl, T. M.; Eigenberg, R. A.; Nienaber, J. A. and Hahn, G. L. 2005. Dynamic response indicators of heat stress in shaded and non-shaded feedlot cattle, Part 1: Analyses of indicators. Biosystems Engineering 90:451-462.

Brown-Brandl, T. M., R. A. Eigenberg, and J. A. Nienaber. 2006. Heat stress risk factors of feedlot heifers. Livestock Science 105: 57 – 68.

Mader, T. L., J. M. Dahlquist, G. L. Hahn, and J. B. Gaughan. 1999. Shade and wind barrier effects on summer-time feedlot cattle performance. J. Anim. Sci. 77: 2065-2072

Mader, T. L., M. S. Davis, and T. Brown-Brandl. 2006. Environmental factors influencing heat stress in feedlot cattle. J. Anim. Sci. 84:712–719. doi: 10.2527/2006.843712

National Research Council (US) Subcommittee on Environmental Stress. Effect of Environment on Nutrient Requirements of Domestic Animals. Washington (DC): National Academies Press (US); 1981. Feed Intake. Available from: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK232317/

 

 

 

 

 

 

 

 

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