É comum associarmos a ideia de Censo a contagem populacional e avaliação de suas principais características, como distribuição de gênero e de idade média, avaliação de renda, entre outros. O fato é que o Censo, cuja primeira versão de avaliação demográfica aconteceu em 1872, também faz um estudo frequente do meio agrário por meio do Censo Agrícola e Industrial.

Além de nos trazer uma visão da evolução do setor produtivo, o Censo Agropecuário também é muito relevante para definição de políticas públicas voltadas a produção no campo. Um exemplo disso é que dados do último Censo Agropecuário, publicado no final de 2019, serão utilizados para a discussão do projeto de regularização fundiária. As discussões do projeto de lei já se iniciaram e o texto tramita na Câmera dos Deputados.

 

           O Censo de 1920 foi único em alguns aspectos. “Dificilmente haverá outro trabalho desse tamanho”, diz o agrônomo Antônio Carlos Floridoem entrevista à agência de pesquisa de São Paulo, a FAPESP. Antônio, gerente do Censo Agropecuário do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), órgão que assumiu as funções da DGE ao ser criado, em 1936, inicialmente com o nome de Instituto Nacional de Estatística. O primeiro Censo Agropecuário foi único não apenas pelo tamanho – 19 volumes com 600 páginas, em média, que começaram a ser publicados em 1924 –, mas também por ir além das estatísticas e oferecer capítulos detalhados sobre a história, a geografia, o clima e as riquezas naturais do país.

Clique aqui e acesse o Censo Agrícola e industrial de 1920

 

Figura 1 – Foto a esquerda, na primeira versão do Censo Agropecuário, em 1920, digitadores faziam cartões perfurados que eram usados para traduzir os questionários dos recenseadores.  Foto à direita, recenseadores do último Censo Agropecuário de 2017, com tablets.

 

Mas, o que mudou entre 1920 e 2020 na pecuária?

         Obviamente muita coisa mudou entre 1920 e 2020, mas a magnitude das mesmas é o que mais chama a atenção. Antes de mostrarmos os números pecuários, é importante ressaltar outra grande mudança observada com o primeiro Censo Agropecuário de 1920: o início da industrialização do país, fato que trouxe grandes implicações no âmbito político e não apenas econômico. Em 1920, a elite agrária, que até então era também elite econômica e política, começou a perder espaço para a indústria, que emergia em um país basicamente exportador de café e açúcar, e que dava seus primeiros passos rumo a industrialização, principalmente no estado de São Paulo.  Estava próximo o fim do período “Café com Leite”

 

 

 

 

 

 

Tabela 1 – O Censo de 1920, primeiro registro agropecuário que temos, observou também o aumento do número de indústrias no país, processo que ocorreu ao longo do século XX.

Quando olhamos os números reportados de bovinos, suínos e aves logo percebemos um aumento significativo do numero absoluto de animais, principalmente bovinos e aves, fato que não se refletiu em números relativos ao tamanho da população, que saltou de 35 milhões para os mais de 200 milhões de habitantes hoje. O número de suínos mais que dobrou no período, chegando a 40 milhões, enquanto aves e bovinos multiplicaram seu tamanho diversas vezes, chegando a 1.6 bilhões e 172 milhões, respectivamente. (figura 1 abaixo).

Figura 1 – Um século de pecuária e avicultura. Quantidade de animais em números absolutos e proporção por habitantes, em 1920 e 2017.

Fonte: IBGE e Pesquisa FAPESP

 

Em 1920 a pecuária era voltada principalmente ao atendimento das demandas internas, e ao longo desses 100 anos se modernizou, aumentou em número e principalmente em produtividade, e hoje atende a nossa população além de dezenas de países importadores. Vale destacar a grande contribuição das importações de genética Zebuína nesse período, especialmente de animais da raça nelore, que ocorreram nesse meio tempo. A raça que hoje compõe mais de 80% do rebanho nacional de bovinos de

corte se adaptou bem as condições climáticas e, com melhoramento genético realizado, teve papel fundamental nas transformações da pecuária entre 1920 e 2020.

Figura 2 – Imagens do Censo Agropecuário de 1920.

 

Figura 3 – Mapas e gráficos ilustrados sintetizam os achados e relatos do Censo de 1920.

 

Outras observações relevantes

Em 1920, dois estados, São Paulo e Minas Gerais, respondiam por metade (53,3%) da área agrícola cultivada no país. Hoje, os estados com a maior área cultivada são Minas e Bahia, cabendo a São Paulo a terceira posição, embora com a maior produtividade por área. Há 100 anos, o milho respondia por 36,9% da área cultivada, seguido pelo café com 33,3%; entre as lavouras permanentes, o café mantém o primeiro lugar em valor da produção agrícola, agora seguido pela laranja, e não mais pelo milho.

A agricultura brasileira diversificou e conquistou novas áreas, principalmente a partir da década de 1970, com a criação da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). No quadro geral, a soja –uma cultura temporária, com 33 milhões de hectares (ha), quase o dobro da área ocupada pelo milho – é atualmente a lavoura com maior valor de produção no Brasil, seguida por cana-de-açúcar, milho e café.

Com os Censos realizados entre 1920 e 2020 também podemos avaliar as mudanças no uso de força de trabalho no campo. De acordo com o agrônomo do IBGE Marcelo Souza de Oliveira, ao comparar 11 Censos Agropecuários, a força de trabalho no campo tem se reduzido como consequência da mecanização, da melhoria dos processos produtivos e do uso de tecnologias. O total de trabalhadores rurais passou de 6,13 milhões em 1920, atingiu o máximo de 23,3 milhões em 1985 e desde então tem caído, chegando a 15,1 milhões em 2017.

Os 100 anos do Censo Agropecuário nos trazem uma radiografia das principais alterações do campo e da pecuária de corte. Em poucas gerações o Brasil passou por mudanças estruturais muito significativas tanto na economia quanto nas forças políticas. Não foi diferente no Agro. Novas áreas foram abertas e incorporadas, novas culturas foram validadas, novas raças importadas e melhoradas. Enfim, o Agro que hoje conhecemos é muito distinto daquele de 100 anos atrás. Olhamos para o retrovisor para acompanhar e comemorar nossa evolução até aqui, mas também para calibrar o futuro, conscientes que a velocidade das mudanças só vai aumentar.

 

 

Bibliografia:

 

 

 

 

 

 

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